O Testamento de Afonso II (1214) constitui certamente um dos mais interessantes exemplares da escrita romance no antigo reino de Portugal para o período anterior a 1255, data dos primeiros exemplares em galego-português da Chancelaria de Afonso III. A escolha categórica pelo romance nas duas cópias que dele conservamos, em contraste com os outros dois testamentos posteriores do rei em latim (de 1218 e 1221), foi considerada durante algum tempo como fenómeno anómalo, mas hoje encontra uma explicação quando inserida no quadro das práticas scriptolinguísticas do período, reformuladas desde finais do século anterior. Além de bosquejar essa questão, o nosso estudo tem como centro de atenção as dúvidas que perduravam sobre algumas lições plasmadas nas diversas edições que dele se sucederam desde a primeira de 1905. A partir de uma análise acurada dos textos manuscritos, conseguimos desvendar (e explicar) algumas unidades inéditas, com destaque para uuei (uvei) P1 do pretérito perfeito do verbo uvar (< lat. obviare), até agora habitualmente mascarada editorialmente sob uiier (viier). Apresentamos também uma edição interpretativa das cópias conservadas na Torre do Tombo de Lisboa (L) e na Biblioteca do Archivo Capitular de Toledo (T).