Pedro Lopes de Almeida
Partindo de uma discussão dos contextos que suscitaram, nos últimos anos, um espaço público de debate aumentado em torno da problemática da descolonização dos espaços Africanos ocupados pelo regime português até ao termo do Estado Novo, o presente ensaio visa promover uma reflexão em torno da noção de ‘território’ que é produzida por sucessivas gerações de autores de nacionalidade portuguesa. Após revisitar os principais argumentos teóricos referentes ao que tem vindo a ser enquadrado nos termos da “especificidade” (ou ausência dela) da ocupação colonial do regime português em África, com destaque para as posições defendidas pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos e os debates que estas suscitaram em anos recentes, proponho aqui uma releitura de Costa dos Murmúrios (Lídia Jorge, 1988), Tocata para Dois Clarins (Mário Cláudio, 1992), e Caderno de Memórias Coloniais (Isabela Figueiredo, 2010), privilegiando aproximações contrapontísticas e leituras rentes ao texto como forma de problematização dos imaginários espaciais construídos nestas narrativas.
Starting with a discussion of the recent debates surrounding the decolonization of Portuguese occupied territories in Africa up until the end of the Estado Novo regime, this essay aims at promoting a reflection around the notion of ‘territory’ as it was deployed by successive generations of Portuguese authors. After revisiting the major tenets of the scholarship referring to the ‘specificity’ (or lack thereof) of settler colonialism by Portuguese in Africa, with a focus on the positions sustained by the sociologist Boaventura de Sousa Santos and the ensuing debates, I propose here alternative interpretations of the novels Costa dos Murmúrios (Lídia Jorge, 1988), Tocata para Dois Clarins (Mário Cláudio, 1992), and Caderno de Memórias Coloniais (Isabela Figueiredo, 2010), favoring contrapuntal approaches and close readings as a way of problematizing spatial imaginaries promoted by these narratives.