Paul Melo Castro
Amplificada por um circuito de retorno envolvendo a comemoração nacionalista e a receção internacional, a narrativa dominante sobre a obra de Ricardo Rangel tende a reduzir o anticolonialismo das suas imagens a uma simples revelação de injustiça binarizada. Ao abordar imagens menos conhecidas ao lado da sua produção mais canónica, defende-se aqui que o seu arquivo demonstra antes um engajamento matizado com a complexidade racial presente no Moçambique tardo-colonial e constitui uma fonte muito importante para uma análise pós-colonial da sua capital, Lourenço Marques. As imagens de Rangel permitem uma reflexão sútil sobre a situação intermediária do próprio fotografo e uma crítica ao colonialismo que vai além do simples facto da população local ter sido explorada e marginalizada.
Amplified by a feedback loop of nationalist memorialization and international reception, the dominant narrative on Ricardo Rangel’s work reduces the anti-colonial purchase of his images to a simple disclosure of binarized injustice. By reading lesser-known images alongside his more canonical production, I argue that his wider archive in fact shows a gradated engagement with the racial complexities of late-colonial Mozambique and provides a key source of material for a post-colonial analysis of its capital, Lourenço Marques. To wit, Rangel’s images permit both a nuanced reflection on his own intermedial status and a critique of colonialism that goes beyond the sheer fact of native exploitation and marginalization.